Reflexões sobre Universidade

postado em 27 de mar de 2017 13:54 por Leonardo da Costa   [ atualizado em 22 de mai de 2017 08:07 por Rodrigo Silva ]
Mário Araújo Filho
Mário Araújo Filho
Professor do Curso de Engenharia Elétrica/UFCG






No meio acadêmico, todo mundo tem muito claro que as atividades-fim da Universidade são Ensino, Pesquisa e Extensão. Em geral, refere-se a ensino de graduação e pós-graduação, atividade investigativa e de geração de conhecimento, extensão – à sociedade – do conhecimento produzido na instituição. Às três atividades-fim acrescenta-se ainda a exigência de que sejam realizadas de forma indissociável, como estabelece a constituição brasileira. É o famoso princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.


Cabendo à instituição universitária realizar essas três atividades, há quem questione se cabe também a cada professor universitário, como indivíduo, realizá-las todas. Li certa vez um texto de José Arthur Gianotti, filósofo e professor da USP, em que ele afirmava (e cito de memória, com o risco da imprecisão) que a universidade precisa de bons professores, absolutamente dedicados ao ensino, mas sem nenhum interesse por atividades de laboratório; a universidade precisa de professores que sejam excelentes pesquisadores, mas sem nenhuma vocação para dar aulas; e, completava, precisa também de “burocratas universitários competentes”, para ter quem bem a administre.

Polêmico, cáustico, autor de “A universidade em ritmo de barbárie”, Gianotti deve ter escandalizado muita gente com essas suas considerações, que atingem em cheio o dogma da indissociabilidade, separando o que “todo mundo” acha que não se pode separar: basicamente, o ensino da pesquisa e vice-versa. O curioso é que aquilo que é brandido como verdade absoluta, quase sagrada no meio acadêmico, não raro tem pouquíssima correspondência com a prática real nos territórios dos campi.


Não necessariamente, os melhores professores de graduação, por exemplo, serão os que tenham a chamada “formação completa”, isto é, o título de doutor - considerado habilitação para coordenar equipes de pesquisa. Não raro, constitui verdadeiro desperdício arrancar docentes vocacionados para a investigação científica, dos laboratórios para as salas-de-aula da graduação, ou mesmo para desenvolver atividades administrativas.


Continuando a mexer nessa autêntica casa-de-marimbondos acadêmica, poderíamos ainda constatar: não existe instituição de educação superior (IES) sem alunos de graduação. A IES pode não ter pesquisa institucionalizada, nem mesmo pós-graduação e nenhuma atividade de extensão, mas terá, necessariamente, que contar com estudantes em nível de graduação para ser considerada instituição de educação superior. Diferentemente, um instituto de pesquisa não precisará de alunos para justificar sua existência.


Já foi praticamente consensual definir IES de excelência como aquela onde seus professores fossem todos doutores, em regime de tempo integral e dedicação exclusiva (retide). Hoje, há unidades de excelência que optam por ter parte dos seus professores em tempo parcial, não necessariamente doutores, mas que tenham um pé no mercado de trabalho, para trazer para a sala-de-aula a realidade lá de fora. Para que possam formar profissionais sintonizados com a evolução da vida real, e que ocorre fora das cercas dos campi.